Cidades para pessoas: o método de Jan Gehl em Florianópolis

O conceito de cidades para pessoas, consolidado pelo urbanista dinamarquês Jan Gehl, deixou de ser referência distante para Florianópolis. Em março de 2026, o escritório Gehl Architects entregou à Prefeitura o estudo “Floripa Centro: Repensando os Espaços Públicos para as Pessoas”, com mais de 70 diretrizes para transformar a região central da capital. Este artigo explica o método por trás do estudo — e o que ele significa para o desenvolvimento urbano da cidade.

Quem é Jan Gehl

Jan Gehl é o urbanista que reposicionou o planejamento urbano mundial ao colocar a vida em primeiro plano. Caminhar, pedalar, permanecer e conviver deixaram de ser efeitos colaterais do projeto e viraram métricas de desempenho.

Seu laboratório foi Copenhague. A partir dos anos 1960, a antiga cidade portuária passou por décadas de intervenções orientadas à escala humana — e se tornou referência global de urbanismo. O escritório Gehl Architects levou o método a cidades como Nova York, Melbourne e São Paulo.

O método em três princípios

A abordagem de Gehl pode ser resumida em três fundamentos:

– Mobilidade ativa como infraestrutura, não acessório: rede cicloviária contínua, segura e conectada a centralidades

– Espaço público de qualidade: ruas e praças desenhadas para estar, não apenas para passar

– Escala humana: fachadas ativas, frentes curtas, usos mistos e densidade que sustenta serviços locais

Na prática, o método inverte a pergunta tradicional do planejamento. Em vez de “quantos carros a via comporta?”, pergunta-se “quanta vida este espaço sustenta?”.

O estudo Floripa Centro: o método aplicado à capital

Em 18 de março de 2026, a Gehl Architects entregou à Prefeitura de Florianópolis o estudo Floripa Centro, com mais de 70 diretrizes urbanas para a região central. O trabalho foi financiado pela CDL Florianópolis e pela ACIF, com apoio técnico do Laboratório de Urbanismo e Arquitetura (LUA), e tem horizonte de implementação de 50 anos.

Entre as propostas apresentadas estão:

  • Uma nova praça no entorno do Mercado Público
  • Uma zona escolar na Rua Esteves Júnior
  • A requalificação das conexões entre o Centro e a orla, com travessias mais seguras na Beira-mar Norte

A metodologia combinou análise de dados urbanos — densidade, tráfego, áreas verdes — com leitura territorial e escuta da população. Além disso, a equipe enfatizou a adaptação à realidade local, em vez de replicar diretamente modelos europeus.

A partir da entrega, cabe ao município avaliar as diretrizes, desenvolver os projetos executivos e buscar recursos para a implementação.

O que isso significa para o desenvolvimento urbano

O estudo chega em um momento de convergência regulatória. A revisão do Plano Diretor, aprovada em 2023 pela Lei Complementar 739/2023, abriu caminho para instrumentos como o incentivo ao uso misto e o adensamento junto a eixos de infraestrutura — princípios alinhados ao método de Gehl.

Consequentemente, três frentes práticas ganham força na cidade:

  • Mobilidade ativa integrada: malha ciclável contínua ligando bairros a polos de trabalho e estudo
  • Requalificação do espaço público: ruas completas com prioridade ao pedestre, praças e orlas como infraestrutura de bem-estar
  • Bairros com vida local: adensamento qualificado junto a eixos de mobilidade e uso misto para reduzir deslocamentos

 

Para o desenvolvimento imobiliário, a leitura é direta. Bairros desenhados na escala humana sustentam serviços locais, ampliam a permanência e concentram demanda consistente. O urbanismo orientado às pessoas não é pauta paralela ao mercado — é uma das variáveis que definem a vocação e a resiliência de cada território.

Como medir resultados

O método de Gehl também mudou a forma de cobrar resultados do planejamento. Indicadores objetivos substituem a percepção:

  • Percentual de viagens a pé, de bicicleta e por transporte público
  • Tempo porta a porta entre casa e trabalho
  • Permanência média em praças e ruas
  • Arborização efetiva: sombra e conforto térmico
  • Segurança viária

São métricas que qualquer cidade — e qualquer projeto — pode adotar para verificar se o desenho urbano está, de fato, servindo às pessoas.

Perguntas frequentes

 

  • Quem é Jan Gehl? Urbanista dinamarquês, referência mundial em planejamento urbano orientado à escala humana. Suas intervenções em Copenhague, iniciadas nos anos 1960, transformaram a cidade em referência global de urbanismo.

 

  • O que é o conceito de cidades para pessoas? É a abordagem que coloca a experiência humana — caminhar, permanecer, conviver — como critério central do desenho urbano, no lugar da prioridade ao automóvel.

 

  • O que é o estudo Floripa Centro? É o projeto “Floripa Centro: Repensando os Espaços Públicos para as Pessoas”, desenvolvido pela Gehl Architects e entregue à Prefeitura de Florianópolis em março de 2026, com mais de 70 diretrizes para a região central. Foi financiado pela CDL Florianópolis e pela ACIF.

 

  • As propostas do estudo já vão sair do papel? A entrega marca o início da fase de avaliação. A implementação depende do desenvolvimento de projetos executivos, da priorização pelo município e da definição de fontes de recursos.

 

  • Como isso afeta o mercado imobiliário de Florianópolis? Regiões que recebem investimento em espaço público, mobilidade ativa e uso misto tendem a ganhar vitalidade e demanda consistente. A qualificação urbana é um dos sinais de maturidade territorial que antecipam a valorização.

 

A entrega do estudo Floripa Centro coloca Florianópolis diante de um teste que Jan Gehl conhece bem: transformar diretrizes em desenho do dia a dia. Copenhague levou 50 anos. A capital catarinense tem agora o mapa — e a escolha.

 

A Shore Urban acompanha esse movimento como parte da leitura territorial que antecede cada projeto: entender como a cidade evolui é o que define onde e o que desenvolver. Veja como o marco regulatório se conecta a essa agenda em [LINK INTERNO: artigo Adensamento urbano em Florianópolis] e como ler os sinais do território em [LINK INTERNO: artigo Como saber se um bairro vai valorizar].

 

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FONTES VERIFICADAS

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  1. Prefeitura de Florianópolis / REPLAN — página oficial do projeto Floripa Centro: redeplanejamento.pmf.sc.gov.br/pt-BR/projetos/floripa-centro [usar como link externo]
  2. CDL Florianópolis — entrega do estudo em 18/03/2026 no Teatro Álvaro de Carvalho, 70+ propostas (nova praça no Mercado Público, zona escolar na Esteves Júnior, conexões Centro-orla)
  3. ND Mais / Gazeta do Povo — financiamento CDL e ACIF, apoio do LUA, horizonte de 50 anos, metodologia com dados urbanos e escuta da população, apresentação por Esben Neander Kristensen e Rute Nieto Ferreira
  4. Correção aplicada: o post original citava “revisão do Plano Diretor (2024)”; o correto é LC 739/2023, aprovada em maio de 2023 (já verificado no Blog 01)
  5. Dados biográficos de Jan Gehl (Copenhague, anos 1960, atuação internacional) — confirmados pelas fontes acima

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